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12/01/2015
Mineração: A união faz a força

Centenas de direitos minerários, ao longo do Brasil, seguem a cartilha de considerar que cada mina, por pequena que seja, deve completar o ciclo produtivo e possuir a obrigação de chegar sozinha com produto final até o mercado, e ainda em forma rentável. Assim, por causa dessa integralidade individual do negócio mineral, os custos de pesquisa, desenvolvimento, projeto, logística, infra-estrutura e etc. são enormes e inversamente proporcionais em relação ao tamanho do depósito. Muitos projetos resultam inviáveis por este caminho. A tendência é de piorar, com minérios mais pobres e complexos, com alto custo de energia e água, maiores restrições ambientais e com baixos preços das commodities.

No plano econômico, cada “negócio mineral”, individualmente, procura a sua própria escala de produção com base no VPL, que privilegia o retorno ao capital investido e não necessariamente a implantação de uma atividade industrial, lucrativa e duradoura. Investir e recuperar rápido são os argumentos de hoje, e as grandes empresas possuem como foco principal esse retorno ao investidor. Fazer da mineração uma atividade duradoura ou permanente é coisa de minerador e, lamentavelmente, os que hoje comandam a mineração global e local não são todos tão mineradores assim.

Ouvi de parte de alguns colegas de que esta queda geral de preços das commodities favorece as grandes mineradoras, que acabariam ficando com todo o mercado. Talvez seja hora dos pequenos unirem forças. Na realidade atual não há espaço para os pequenos apenas lucrar – muito menos rapidamente - no negócio de “investir” em mineração; mas sim podem ganhar dinheiro, durante muitos e muitos anos, minerando mesmo, produzindo, gerando empregos e se somando à base industrial de um grande país em vias de desenvolvimento.

Todos os pontos destacados acima poderiam ser mais bem equacionados, misturando a segurança e o retorno do investidor com a atividade sólida e duradoura da indústria da mineração. Um ponto chave para isso seria a aproximação entre pequenas empresas “juniores” e, também, mediante a separação da atividade mineral em módulos produtivos, que poderiam inclusive ser independentes.

Os Módulos Produtivos

A atividade mineral – em diversos casos - pode ser fracionada:

I) Mina, incluindo britagem e pré-concentração a seco, gerando um bom “minério”, mais rico, estável e homogêneo. Este minério pode, eventualmente, ser comercializado para uma usina concentradora, ou concentrado em unidade própria;

II) Planta de concentração primária (do tipo moagem primária e pré-concentração a úmido), comprando minério de terceiros e/ou utilizando minério próprio, e gerando rejeitos finais e concentrados pobres, de alguma substância principal e, eventualmente, de produtos secundários;

III) Planta de concentração final ou de refino. Recebe pré-concentrados ou concentrados sem refino, para gerar produto final de alta qualidade e/ou aceitos pelo mercado.

Atividades rústicas devem ser feitas mais próximas de onde está o minério. Atividades industriais que demandem mais gente, água e energia, assim como de espaço autorizado para disposição de rejeitos, devem ficar em áreas que garantam maior durabilidade ao investimento e onde a legislação ambiental outorgue mais facilidades e, ainda, equidistante de diversas unidades de extração mineral.

A Usina final de refino deve ficar mais próxima de centros urbanos e do mercado consumidor (em bairro industrial), com alta tecnologia e acesso a bons profissionais e centros de pesquisa, pudendo receber minérios pré-concentrados de outros locais.

Projetos podem ser curtos, na lavra, porém muito duradouros na atividade industrial de concentração e de refino, pois podem continuar recebendo minérios de diversos depósitos. Centenas de depósitos no Brasil podem gerar dezenas de usinas concentradoras e, destas, algumas poucas e boas refinarias. A lavra pode ser rápida e econômica, mas, a usina industrial precisa de maior vida útil e de investimento. Obviamente, um depósito de classe mundial pode sozinho gerar todos os ciclos industriais, mas, no esquema aqui proposto, centenas de pequenas mineradoras poderiam ser viabilizadas apenas com a atividade extrativa.

A união que faz a força

O estudo de pequenos depósitos, neste prisma, permitiria investimentos mais seguros, duradouros, sinérgicos, e com maiores chances de sucesso para as empresas exploradoras (juniores).  A conversão de uma empresa júnior numa mineradora efetiva também seria viável, ao juntar-se com outras empresas juniores. Uma pequena empresa mineradora pode então gerar, da sua jazida, um bom minério, com baixo custo, e ganhar dinheiro com a venda deste para uma empresa concentradora.

Meia dúzia de pequenas mineradoras poderia investir, conjuntamente, numa boa planta de concentração primária, para onde seria enviado o pré-concentrado de cada uma. Seria feito um programa para aproveitar os mesmos equipamentos de lavra e as mesmas instalações de britagem para ir beneficiando cada uma dessas minas, no melhor planejamento possível, com mínimos CAPEX e OPEX e, ainda, com equipe técnica de alta qualidade supervisionando todos os depósitos. Ainda, podem abrir poder comprador para outras pequenas mineradoras da região. Eles mesmos, ou em conjunto com outros grupos, poderiam investir no refino e na logística final de venda.

O estado brasileiro será fundamental para nortear estas oportunidades de sinergia, apoiando ou até mesmo investindo nestas atividades (como a “pequeña minería” no Chile). Naturalmente, as grandes mineradoras irão continuar do jeito que estão, mas, a fórmula aqui apresentada permitiria viabilizar centenas de juniores, que correm enormes riscos, diariamente, na pesquisa de novos depósitos.

São numerosas as oportunidades que poderiam surgir no Brasil ao observar as coisas por este prisma:

  • Consórcio logístico para extrair o pré-concentrado, ou o concentrado de minério de ferro gerado em todos os projetos da região Norte de Minas Gerais;
  • Pré-concentrar o minério compacto nas diversas empresas da área de Itatiaiuçu (MG) e levar até uma usina única concentradora final (com uma grande barragem), que refine e despache o concentrado final em forma conjunta e cooperativa;
  • Projetos de grafita, cujos depósitos, em geral, são pequenos e dispersos, poderiam tentar a pré-concentração e enviar pré-concentrado para uma usina central, mais duradoura e de alta tecnologia, para a concentração final e refino.
  • Depósitos de cobre na região de Carajás.
  • Diversos pequenos projetos de minério de ferro no interior da Bahia, na região de Bom Jesus da Lapa e/ou próximos da nova linha de trem que correrá até o porto Sul, próximo de Ilhéus.
  • Diversos pequenos depósitos de Ouro próximos, de baixo teor (casos típicos em Goias, Minas Gerais, Pará, Bahia e Mato Grosso).

 

 

Belo Horizonte, Janeiro 2015

Alexis P. Yovanovic

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