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04/10/2013
SAUDADES DA PAULO ABIB S.A.

Belo Horizonte, 04 de outubro de 2013.

 

Numa dessas noites de Happy Hour, no Bar do John, estivemos lembrando com saudades da Paulo Abib S.A., a melhor e mais brasileira das empresas de engenharia deste país. Empresa que gerou soluções e tecnologias inovadoras, e que enfrentava cada projeto como um desafio e não um exercício de “cópia e cola” desenfreado como o que se observa hoje, com algumas poucas exceções.

Para os mais novatos, podemos contar que a Paulo Abib S.A. nasceu no início dos anos 70 e foi desmobilizada bem no começo dos anos 90, adquirida pela Porto Real, que decretou falência e logo desapareceu com suas pessoas, equipamentos de laboratório, projetos e sonhos, pulverizados pelo Brasil afora. Alguns dos equipamentos de laboratório e planta piloto estão, na sua maior parte, renovados com as mãos experientes da Fundação Gorceix, gerando ainda bons projetos para o Brasil.

Na área de processos, Roberto Vilas Boas levou parte desses sonhos para o CETEM; Arthur Pinto Chaves para a sua USP (que nunca abandonou) – Roberto e Arthur alertaram o Brasil há mais de 25 anos sobre o perigo dos “Mitos Tecnológicos” e da necessidade de “cultura tecnológica nacional”, bandeira hoje levantada pela MOPE; José Luiz Beraldo está no céu (saudades dele); Afrânio Franco Machado, hoje assessorando a SRK; Marquinho (Marco Aurélio Martins Soares) criou a CEMI, uma das mais criativas empresas consultoras do Brasil; José Alísio, que negociou posteriormente a sua empresa ECM para Carlos Eduardo e Dedé, na época uma dupla das mais competentes em engenharia de processo do Brasil; Paulo Afonso e Eduardo Dias, que levantaram a sua Minerconsult, do “zero” até a prateleira de cima da engenharia nacional (hoje adquirida pela SNC- Lavalin); a Silvia Ibelli, depois de ajudar a desenvolver a Minerconsult lidera hoje a Contecmina no Brasil; o Jorge Valente, Mauricio Drumond, José Eustaquio Gracioso e dezenas de bons profissionais que ainda lutam pela cultura tecnológica nacional, embora cada um na sua própria trincheira.

Lembramos também aqui da turma pioneira de automação, que criou o sistema CENTAURUS, primeira plataforma de controle de processos que deu origem a muitos dos sistemas existentes hoje no mercado, graças à diversidade da turma que seguiu por esse caminho, como Constantino Seixas, que fez da sua ATAN a jóia da coroa da automação no Brasil (hoje adquirida pela Acenture); Sanderson Vanucci e Ricardo Fortuna (que criaram a saudosa Arte & Byte); O Francisco Alvarado “3D” com a sua Omisys e muitos outros.

A minha passagem foi breve, em 1987, de modo que, embora com saudade, não tenho muita autoridade para falar de uma empresa como a Paulo Abib, mas podem procurar no Happy Hour amigos mais experientes, ou falar com a própria Silvia Ibelli (Contecmina) que, em conjunto com a VALE Fertilizantes, patrocinou recentemente um livro in memoriam do Paulo Abib Andery.

Mas há um assunto de que, sim, posso falar: tenho saudades da engenharia e cultura tecnológica nacional, dos desafios e inovações e, perante esta realidade, reforço as palavras de Roberto Vilas Boas e do Arthur Pinto Chaves, pois precisamos hoje, em momentos ditos de crise, lembrar que Brasil merece mais do que nunca ter a sua “cultura” e desmistificar a sua tecnologia.

A mineração viveu quase duas décadas numa zona de conforto que não precisava nem merecia. O alto teor do ROM, o dólar barato de anos atrás e as oportunidades de novas jazidas trouxeram diversas empresas de engenharia estrangeiras, alheias às realidades locais, oferecendo com orgulho e até prepotência grandes nomes de consultores do exterior, que trazem para o Brasil apenas as mesmas fórmulas de Bond, dos anos 1960, no idioma inglês.

As grandes mineradoras achavam que ganhavam muito ao pagar pouco pelas HH dos nossos projetistas, mas, na realidade, com raras exceções, compraram muitas vezes apenas cópias de projetos anteriores, de duvidosa qualidade.

Muitos dos projetos destas últimas décadas apresentam o rótulo de “conservador” (é fácil ser conservador com o dinheiro dos outros!), como se isso fosse um grande mérito, em circunstancia que, por outro lado, cada ano que passa, esses projetos ditos conservadores demoram mais tempo a entrar em plena produção, gastando dezenas de vezes mais dinheiro em ajustes de campo, exatamente nas áreas onde foram displicentes com a engenharia. Foi introduzido o termo “ramp-up”, para justificar meses (ou até anos) de demora de determinados projetos para entrar em regime, substituindo o antigo “start-up” de poucas semanas.

Os nossos minérios são geralmente heterogêneos e apresentam diversidade mineralógica e de teores em cada faixa granulométrica depois que são cominuidos, etapa após etapa; onde a liberação não pode ser representada por um mero valor de P80.  Os minérios primários, do Chile ou Canadá, quando quebrados, geram partículas com quase o mesmo DNA da rocha que os gerou, por isso podem trabalhar apenas com valores de P80 e análises químicas de amostras de cabeça. Esta falta de cultura nacional, associada à vaidade de alguns executivos de pouca experiência operacional, permitiu a penetração infeliz dos moinhos SAG no Brasil.

Nada pessoal, pois muitos dos colegas que possam aqui sentir-se tocados possuem muito mais mérito que este comentarista aqui, sentado comodamente na sua sala, escrevendo sobre este assunto. Eu também cometi e ainda cometo muitos equívocos. Quero apenas chamar a todos a refletir, pois o Brasil precisa e merece.

A realidade dos minérios de hoje – mais pobres e difíceis de beneficiar - bate à nossa porta, na escavadeira, na usina, na prancheta, no notebook e no meio ambiente, nos obrigando a sermos cada vez mais inovadores e, ao mesmo tempo, com os pés no chão.

Vamos clamar forte e trazer o espírito do Paulo Abib de volta!

Alexis Yovanovic

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