O paradoxo da mineração

Ilustração: Paweł Kuczyński

O dilema que enfrentamos atualmente com a enorme quantidade de rejeitos produzida é fundamental para compreendermos qual futuro vislumbrar para a mineração nacional e mundial. Entre as causas e as consequências, o que temos visto é um mercado astuto que estabelece a produção de rejeito como algo inevitável. Ao tratar a questão dessa forma, as soluções também inevitáveis são voltadas para mitigar as consequências de um processo que não se discute.

A tese do paradoxo que aqui defendemos somente seria factível se houvessem discussões que abordassem também a origem do problema. O uníssono em torno das consequências dos processos inquestionáveis é a representação fidedigna de como estamos preocupados em resolver os sérios problemas que a mineração precisa enfrentar.

Após Mariana e Brumadinho, não seria natural fazermos essas perguntas:

•    É possível reduzir a geração de rejeitos? 
•    Por que não fizemos essas perguntas ainda?
•    O que estamos esperando?

A mineração está passando por uma crise de identidade. Assim como as pessoas, quando a crise bate à porta resistimos em ceder às mudanças que dela advém. Fechamos a porta e fingimos que não foi com a gente. Nos mantemos fiéis ao estilo de vida que acreditamos ser o único possível, auto imposto por nossa limitada visão de mundo.

O que é preciso fazer para que o momento de crise seja de bom proveito para promover as mudanças que a mineração tanto necessita? Crise é sinônimo de oportunidade, é a janela que se abre no tempo para que novos ares entrem e renovem as atitudes que já não produzem mais bons frutos. A hora é agora!

Temos convicção de que há boas soluções para os problemas que a mineração precisa enfrentar. A resistência à mudança tem sido um grande entrave para a inserção de novas tecnologias que visam à eficiência nos processos de produção do setor. A melhoria qualitativa no processo traz como consequência inevitável menor impacto socioambiental. Isso precisa soar como algo positivo, uma vez que a licença social para operar vem ganhando cada vez mais notoriedade na indústria extrativa. Precisamos inaugurar esse diálogo, a situação atual reclama um contraditório com protagonistas responsáveis e criativos. Quem se habilita?

Boas soluções já foram entregues a grandes mineradoras, principalmente na mineração de ferro, ilustrando com informações evidentes de que dentro do fluxo principal de muitas mineradoras a sílica se encontra quase liberada, em tamanhos acima de 0,15mm. Mostramos como exemplo o material retido em peneiras de alta frequência, “branquinho” (obviamente, depois de bem moído, com técnicas de moagem seletiva), por meio de experiências piloto da MOPE. O Chile avança neste caminho de mudança na mineração de ferro e logo seguiremos com cobre, ouro e outros.

Enquanto os indicadores financeiros e acordos jurídicos forem a atividade principal das grandes mineradoras, o processo de produção será sempre relegado a atividade secundária e de menor relevância, com a função explicita de produzir mais matéria-prima em menor espaço de tempo para remunerar o capital financeiro.

Evandro Evangelista